DESTAQUE DEZEMBRO 2022

DESTAQUE DEZEMBRO 2022

 

Virgem com o Menino

A coleção do Museu Medeiros e Almeida possui uma pintura de pequena dimensão que representa A Virgem do Leite. Tema do agrado dos pintores do norte da Europa, a sua representação foi retomada no século XV, após um longo período de esquecimento, emergindo e popularizando-se no culto comunitário e privado.

Virgem com o menino

Pintura a óleo sobre madeira representando a Virgem com o Menino e anjos Músicos.

A composição é dominada pela figura da Virgem de longos cabelos loiros, de pé, aleitando o Menino, ladeada por dois anjos músicos, num espaço fechado – hortus conclusus, por um muro com ameias. Por trás, em fundo, um drap d’honneur, adamascado dourado. A Virgem veste um manto azul escuro (apresenta uma legenda ilegível) que cai até ao chão em vincadas pregas, sob o qual aparecem mangas encarnadas e um panejamento branco no qual está envolto o Menino. A ladear a Virgem dois anjos músicos: um alaudista que traja capa encarnada sobre túnica azulada e um harpista que veste capa adamascada dourada rematada por pedraria sobre túnica verde. Sobre a cabeça da Virgem esvoaçam dois anjos que seguram coroa, evocando a Sua coroação.

Em segundo plano, extramuros, paisagem campestre com rio do lado esquerdo e com edifício religioso à direita. No topo a legenda: Tota pulchra amicha mea et.

A pintura apresenta na moldura uma pequena placa que a identifica como sendo da autoria do Mestre de Flémalle – Robert Campin.

 

 

A realidade do Mestre Flémalle ou Robert Campin

 

Pintor originário da cidade de Tournai, Robert Campin (1375-1444) também designado por mestre de Flémalle, devido a duas pinturas de um retábulo, pertencentes ao castelo (não abadia como por vezes ocorre) desta cidade e que lhe são atribuídas, introduziu o realismo na pintura flamenga. A inclusão de pormenorizadas cenas quotidianas na representação religiosa (a sua principal produção) apresenta-se como uma novidade, de que foi o percursor, abrindo caminho para uma nova abordagem da pintura a Norte, humanizando o sagrado.

Inúmeras vezes imitado, crê-se que Robert Campin teria uma oficina com vários colaboradores, entre os quais terão estado Jacques Daret (1404-1470) e Rogier van der Weyden (1399-1464) levantando-se por vezes questões de autoria dos trabalhos que lhe são atribuídos.

A popularização do culto da Virgem na Flandres e Holanda durante o final do gótico e início do renascimento não terá sido estranho a uma grande produção de pintura com a Virgem e o Menino. De facto, este será um tema popular seja por encomenda para o culto privado, como parece ser o caso da pintura do MMA, seja para pintura retabular destinada ao espaço religioso público. A emergência de uma burguesia mercantil que então começava a prosperar, permite-se encomendar pintura para o culto privado, começando os pintores a retratar de forma fiel a realidade, transpondo-a para o campo religioso. Robert Campin será exímio neste tipo de representação, particularmente ao nível do detalhe, permitindo-nos conhecer de forma muito aproximada os interiores e a paisagem que trata com enorme minúcia, numa tradição trazida da iluminura.

Cenas religiosas desenrolam-se em ambiente caseiro e familiar onde não faltam objectos do dia a dia, como no caso do Tríptico da Anunciação (atribuído à sua oficina) pertença do Metropolitan Museum de Nova Iorque (disponível em https://www.metmuseum.org/pt/art/collection/search/470304, consultado a 28.11.22). Para além da detalhada representação do ambiente quotidiano, a Robert Campin também é atribuída a rigorosa reprodução paisagística de segundo plano, quer seja urbana ou campestre.

Neste novo ciclo na pintura flamenga, para além de Daret e van der Weyden, é também seguido por Jan van Eyck (1390-1441). A todos, não terá sido alheia a utilização de uma nova técnica pictórica: o uso da pintura a óleo, o que virá a permitir o emprego de matizes e transparências mais acentuadas relativamente à têmpera até então utilizada, possibilitando a representação de minuciosos detalhes.

A atribuição a Robert Campin da autoria da pintura do Museu Medeiros e Almeida, prende-se essencialmente com a aproximação a aspectos formais a uma pintura pertencente ao Metropolitan Museum de Nova Iorque, cópia de um original de Campin: a Virgem amamenta o Menino, enquanto dois anjos tocam, desenrolando-se a cena numa abside simulando o  hortus conclusus (disponível em https://www.metmuseum.org/art/collection/search/435838, consultado a 15.11.22).

Estas personagens foram representadas seguindo um modelo iconográfico muito semelhante, estando inclusivamente a Virgem e o Menino na mesma posição: repare-se nas mãos e dedos de Maria e nos pés de Jesus.

 

 

Maria Lactans / Imaculada Conceição

 

Numa abordagem comum na Flandres, o pintor retratou a Virgem da pintura do Museu Medeiros e Almeida, sob diversas invocações: Virgem e o Menino, Virgem do Leite, Virgem da Conceição – apoiada no crescente lunar, coroada por 12 estrelas.

A Virgem do Leite ou Maria Lactans e a Imaculada Conceição, tal como aparece nesta pintura, são indissociáveis. Jesus foi gerado sem pecado, encontrando o leite de Maria que O alimenta paralelo no sangue de Cristo, alimento espiritual de todos os cristãos. A pintura é encimada pela legenda: Tota pulchra est amicha mea et [macula non est in te] [Tu és toda formosa, meu amor, e em ti não há mancha] (Cant. 4, 7) descrição alegórica da pureza da Virgem retirada do Cântico dos Cânticos, daí, a representação num hortus conclusus – jardim fechado que protege simbolicamente a Imaculada Conceição, cujo dogma “… foi oficial e solenemente definido pelo Papa Pio IX em 1854, através de bula Ineffabillis Deus.”

O tema iconográfico da Nossa Senhora do Leite é muito antigo, havendo referências desde o século II, nos frescos das catacumbas romanas. “Os evangelhos e outros textos litúrgicos fazem referência ao aleitamento de Jesus. O tema esquecido durante a Idade Média, volta a aparecer na arte a partir o século XIV, com algumas variações no que diz respeito à posição da Virgem … e do Menino que começa por estar de costas e se vai voltando para o espectador. A temática foi de grande agrado dos flamengos, talvez pela sua vertente fortemente realista.”

A partir do final século XIII, mas em particular do XIV, a imagem é um espelho humanizado da relação mãe / filho: a Mãe que amamenta, o Menino que brinca.

No culto privado será também de considerar o papel catequético reservado à pintura que “ajuda” a criar as crianças guiando moralmente, dando o exemplo do amor familiar transmitido pela imagem da Virgem que amamenta o Seu filho.

Igualmente poderá ter assumido uma outra vertente: consolo após a morte de um filho, acontecimento comum à época e pelo qual Maria também passou.

 

 

Uma autoria?

 

No caso da pintura do Museu Medeiros e Almeida, para além dos aspectos já mencionados que possam remeter para uma inspiração no trabalho de Robert Campin, o pintor esmerou-se na a pormenorização da representação dos tecidos, tanto na forma como na decoração. Tecidos “pesados” com pregueados vincados, reflectindo um jogo de luz e sombra nas pregas profundas, potenciado pela utilização da pintura a óleo que então se começava a empregar. A complexa riqueza do adamascado da capa do anjo harpista não escapou ao pintor, tal como o minucioso bordado a pedraria que remata a mesma. Igualmente, a imponência do drap d’honneur, que se confunde com a simbologia da Virgem (coroa de 12 estrelas), reflectida pelos tons dourados. No entanto, uma observação mais atenta de ambas as pinturas leva-nos a questionar a realização de detalhes como as mãos do Menino, o volume de tecido usado nos pregueados das vestes, a sua luminosidade e movimento, a execução das mãos dos anjos músicos, da harpa (de modelo diferente), tal como a representação da paisagem em 2º plano, em particular do edifício religioso, longe da qualidade do detalhe apresentado pelo mestre de Flémalle.

O facto de até ao momento desconhecermos qualquer tipo de documentação associada à encomenda, origem ou datação desta pintura não nos permite atribuir uma autoria concreta, apenas nos autorizando a estabelecer claramente como fonte de inspiração uma pintura (hoje desaparecida) de Robert Campin ou uma das inúmeras cópias realizadas pelo seu círculo oficinal, permanecendo em aberto a autoria desta obra.

 

 

Proveniência

 

A pintura de pequena dimensão, foi adquirida em 1947 no leilão da Leiria e Nascimento da Coleção Barros.

Manuel José de Barros (?-1915) nascido no concelho de Viana do Castelo, estabeleceu-se no Porto como comerciante de têxteis (Casa Barros). Em paralelo, foi um importante colecionador de arte, em particular de porcelana da China e de vidros a que se juntou mobiliário e pintura. O espólio por si reunido foi a leilão em 1947, tendo sido nesta altura que António Medeiros e Almeida adquiriu a pintura da Virgem com o Menino e anjos músicos, por 100.000 escudos, soma muito avultada para a época.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

Ashton, Anne M. Interpreting Breast Iconography in Italian Art 1250-1600. University of St. Andrews, 2006. http://hdl.handle.net/10023/2675 (consultado em 12.11.22).

Duarte, Sónia Maria da Silva. O contributo da Iconografia Musical na Pintura Quinhentista Portuguesa, Luso-Flamenga e Flamenga em Portugal. Para o Reconhecimentos das Práticas Musicais da época: Fontes e Modelos Utilizados nas Oficinas de Pintura (Dissertação de Mestrado). Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2011.

Magalhães, João. “Leilão da Colecção Barros”. Leilões com História. Fevereiro, 2007.

Roque, Maria Isabel. “Imaculada Conceição: dogma e imagem”. a.muse.arte. Agosto, 2016. https://amusearte.hypotheses.org/1641 (consultado em 22.11.22).

https://www.metmuseum.org/art/collection/search/435838

https://www.museodelprado.es/coleccion/artista/campin-robert/5ad97238-e96d-4cf5-a91c-d0343a3d86bb

https://musees.dijon.fr/nativite

https://www.museumedeirosealmeida.pt/pecas/nossa-senhora-do-leite/

https://www.rivagedeboheme.fr/pages/arts/peinture-15-16e-siecles/robert-campin-le-maitre-de-flemalle.html

Como citar:

Carvalho, Cristina. Virgem com o Menino ou Virgem do Leite. Lisboa: Museu Medeiros e Almeida, 2022. https://www.museumedeirosealmeida.pt/pecas/destaque-dezembro-2022/.

 

 

Notas:

A investigação em História da Arte é um trabalho permanentemente em curso. Caso tenha alguma informação ou queira colocar alguma questão a propósito deste texto, agradecemos o contacto para: info@museumedeirosealmeida.pt.

A autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

Autor

Autor desconhecido

Data

Séc. XV – final (?)

Local

Flandres

Materiais

Óleo sobre madeira de carvalho

Dimensões

A. 52 x L. 36 cm

Category
Destaque