A cómoda, móvel que surgiu nos finais do século XVII, resulta da evolução da arca tradicional, cuja tampa foi substituída por gavetas. A maior capacidade de armazenamento, aliada a uma organização mais funcional e acessível dos objetos, explica não apenas a origem da sua designação, mas também o seu rápido sucesso e notável longevidade. Ao longo do século XVIII, a cómoda tornou-se um dos móveis mais representativos dos interiores domésticos europeus. A difusão do seu uso deveu-se não só às suas qualidades práticas enquanto móvel de guardar, mas também ao seu valor decorativo. Integrada nos espaços de aparato, surgia frequentemente isolada ou organizada em pares, encimada por espelhos, relógios ou objetos de luxo, podendo ainda articular-se com a decoração das lareiras para formar conjuntos harmoniosos. Produzidas sobretudo entre cerca de 1700 e 1730, as chamadas cómodas en tombeau desenvolvem-se durante o período da Regência de Filipe II, Duque de Orleães (1715-1723), fase que, nas artes decorativas francesas, ficou conhecida como estilo Régence. Este estilo constitui uma etapa de transição entre a monumentalidade do reinado de Luís XIV e a crescente leveza ornamental que caracterizará o gosto rococó.
O par pertencente à coleção do Museu Medeiros e Almeida apresenta todas as características próprias das cómodas en tombeau. Esta designação deriva da sua forma volumosa e arqueada, com frente e ilhargas fortemente curvas, evocando o perfil de um túmulo. A estrutura organiza-se em duas pequenas gavetas superiores sobrepostas a dois gavetões de maiores dimensões, assentes sobre pés curtos e robustos.
Nas peças do Museu Medeiros e Almeida destaca-se a pronunciada curvatura do gavetão central, característica geralmente associada à elevada qualidade técnica da execução. A complexidade construtiva exigida por estas superfícies curvas testemunha o elevado nível de especialização dos ateliers parisienses da época.
Também característica deste tipo de mobiliário é a utilização de folheados e marchetarias obtidos através da combinação de madeiras de diferentes tonalidades. Organizadas em elaborados desenhos geométricos, estas composições valorizam a riqueza cromática das superfícies. O carvalho era geralmente utilizado na estrutura interna dos móveis, enquanto madeiras mais preciosas, como o pau-violeta, eram reservadas aos revestimentos decorativos.
A ornamentação em bronze dourado e cinzelado constitui outro dos elementos distintivos destas cómodas. Os espelhos das fechaduras, os puxadores, as chutes e os sabots revelam uma decoração de inspiração rocaille, cujos motivos assimétricos e de inspiração naturalista anunciam já o vocabulário ornamental característico do rococó. Além da sua função decorativa, os sabots e as chutes protegiam os pés e os ângulos dos móveis contra o desgaste provocado pelo uso quotidiano.
Os tampos, executados em mármore Rouge de France, acompanham o perfil sinuoso das cómodas, contribuindo para reforçar a elegância das suas linhas e o caráter luxuoso do conjunto.

De origem flamenga, Antoine Criaerd pertenceu, juntamente com o seu irmão mais velho, Mathieu Criaerd, a uma família de ébénistes que se destacou em Paris durante a primeira metade do século XVIII. Embora a sua biografia permaneça pouco conhecida, sabe-se que exerceu atividade no Faubourg Saint-Antoine entre cerca de 1720 e 1750, o principal centro de produção de mobiliário parisiense. É provável que tenha colaborado com importantes marchands-ébénistes da época, entre os quais Migeon.
Os irmãos Criaerd produziram numerosas cómodas en tombeau assentes em modelos muito semelhantes, distinguindo-se sobretudo por pequenas variações na montagem dos bronzes, nas ferragens e nos pormenores decorativos. Contudo, cada um utilizava a sua própria estampilha, circunstância que permite atribuir com segurança as peças do Museu Medeiros e Almeida a Antoine Criaerd.
Ambas as cómodas apresentam a marca «A. CRIAERD», estampilhada no aro, sob o tampo de mármore, constituindo um importante elemento de autenticação. A qualidade da marchetaria, a elegância das proporções e a riqueza da decoração em bronze fazem deste par um notável exemplo da produção parisiense do período Régence, ilustrando um dos momentos mais sofisticados da história do mobiliário francês do século XVIII.

Proveniência
O par de cómodas foi vendido por Laura de Paiva Raposo Hornung (n. 1868), viúva de John Peter (“Pitt”) Hornung (1862-1940), fundador da Sena Sugar Estates, em Moçambique. O casal adquiriu, em 1913, a propriedade de West Grinstead Park (Fuller’s Farm), em West Grinstead, Sussex, Inglaterra, a qual foi alienada após a morte de Hornung. Laura de Paiva Raposo casara com Pitt em Lisboa, em 28 de abril de 1884.
No período do pós-guerra, Laura Hornung, tia e madrinha de Maria Luísa de Paiva Raposo, cunhada de António de Medeiros e Almeida por casamento com o seu irmão Gustavo, propôs ao colecionador a aquisição das cómodas, atendendo aos laços familiares e de amizade existentes entre as duas famílias.
Laura e John Peter Hornung conheciam bem o casal Medeiros e Almeida, uma vez que passavam longas temporadas em Portugal com a sua numerosa família. Eram proprietários da Quinta dos Azulejos, no Paço do Lumiar, famosa pelos seus painéis de azulejos e pelos jardins barrocos. Construída em 1745, a quinta foi adquirida pelo casal Hornung em 1919 e permaneceu na sua posse até cerca de 1930. Em 1935, a propriedade foi adquirida para aí ser instalado o Colégio Manuel Bernardes.
O par de cómodas foi adquirido a Mrs. Hornung, por intermédio da firma de antiquários Keeble Ltd., 34 Grosvenor Street, Londres, em abril de 1946, por uma quantia desconhecida.
Uma fotografia a preto e branco de uma das cómodas, enviada a Medeiros e Almeida durante o processo de aquisição, apresenta no verso a inscrição: “Given by Queen Carlota Joaquina to the Conde de Farrobo”. Esta anotação parece refletir uma tradição oral conservada pela família Paiva Raposo Hornung; contudo, não se conhece qualquer documentação que permita confirmar esta proveniência.
Apesar de a compra ter sido concluída em 1946, diversos entraves burocráticos atrasaram o envio das peças, que apenas foram expedidas de Londres para Lisboa em 3 de outubro de 1948, a bordo do navio Highland, através dos agentes Cox & Kings Ltd.
Cristina Carvalho
Casa-Museu Medeiros e Almeida
NOTA: A investigação é um trabalho permanentemente em curso. Caso tenha alguma informação ou queira colocar alguma questão a propósito deste texto, por favor contacte-nos através do correio eletrónico: info@museumedeirosealmeida.pt
Bibliografia
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THENNISSEN, André. Meubles et sièges du XVIIIe siècle. Paris.
SALVERTE, Comte François de. Les ébénistes du XVIIIe siècle: leurs œuvres et leurs marques. 4.ª ed. Paris, Vanoest, Les Éditions d’Art et d’Histoire, 1953, p. 74.
KJELLBERG, Pierre. Le Mobilier français du XVIIIe siècle. Dictionnaire des ébénistes et des menuisiers, Les Éditions de l’Amateur.
Catálogo Henri Burnay: De Banqueiro a Colecionador, Casa-Museu Anastácio Gonçalves, Lisboa, novembro de 2003, pp. 215-217.
Catálogo Tesouros da Intimidade Real: Objetos do Uso Pessoal de Príncipes Europeus, Fundação Medeiros e Almeida, Lisboa, pp. 52-53.
PROENÇA, José António. Mobiliário da Casa-Museu Anastácio Gonçalves. IPM, Lisboa, 2002, pp. 153-154.
Antoine Criaerd (ativo 1720-1750)
c.1720-1730
Paris, França
Carvalho, pau-rosa e pau-violeta, bronzes dourados e cinzelados e mármore
Alt. 87,5cm x Comp. 135,5cm x Larg 66cm Alt. 85,5cm x Comp. 134cm x Larg 64cm
FMA 55 / FMA 56