Integrando atualmente a coleção de mobiliário do Museu Medeiros e Almeida e exposto no Quarto, este par de cómodas constitui um interessante caso de estudo, tendo suscitado dúvidas quanto à sua atribuição. As suas características formais aproximam-no dos modelos franceses de tradição Louis XV, conhecidos em Inglaterra como French commodes, amplamente difundidos através dos repertórios de Thomas Chippendale, William Ince e John Mayhew, e Thomas Sheraton. Contudo, algumas particularidades construtivas e decorativas parecem apontar para uma execução posterior, eventualmente enquadrável no contexto dos revivalismos oitocentistas, questão que permanece em aberto.
Par de cómodas de estilo Luís XV, executadas em madeira de nogueira, de invulgares pequenas dimensões, medindo apenas 78 cm de altura por 66 cm de largura, circunstância que as distingue da tipologia corrente.
Apresentam frente e ilhargas bombeadas, assentes sobre pernas cabriolet terminadas em pés enrolados, sendo compostas por três gavetas de largura total, decoradas com elegantes ferragens de desenho rocaille e espelhos de fechadura recortados. A decoração entalhada desenvolve-se em motivos de conchas, folhagens e elementos vegetalistas, destacando-se a concha central da saia recortada e os relevos esculpidos nas ilhargas.
A configuração geral, marcada pelo dinamismo das curvas, pela volumetria abaulada e pelo repertório ornamental rococó, enquadra-se na tradição do mobiliário francês do período Luís XV. Modelos desta tipologia, conhecidos em Inglaterra como French commodes, conheceram ampla divulgação a partir da publicação dos desenhos de Thomas Chippendale, sendo posteriormente incluídos em importantes obras de referência para a produção de mobiliário inglesa, nomeadamente The Cabinet-Maker’s London Book of Prices, de William Ince e John Mayhew, e The Prices of Cabinet Work, de Thomas Sheraton.
Embora inspiradas nos modelos franceses do século XVIII, as características formais e decorativas observáveis sugerem uma produção posterior, provavelmente enquadrável no movimento revivalista do século XIX, que retomou com grande sucesso os modelos Luís XV para os mercados francês e britânico. A qualidade da talha, a regularidade da composição ornamental e o desenho das ferragens testemunham o apreço continuado por esta estética ao longo desse período.
Estas peças possuem ainda uma proveniência relevante, tendo sido adquiridas por António de Medeiros e Almeida em Londres, em 1948, integrando posteriormente a sua coleção.
Constituem um interessante testemunho da difusão internacional dos modelos rococó franceses e da sua receção no universo do mobiliário inglês e europeu.