Ao contrário do mobiliário português produzido entre cerca de 1750 e 1775 — período correspondente ao reinado de D. José (1750–1777) —, geralmente caracterizado pelo uso preferencial de madeiras maciças entalhadas, sobretudo exóticas, esta cómoda-papeleira distingue-se desde logo pelo material. Com efeito, o móvel foi executado em nogueira. Além disso, apresenta uma decoração marcada por motivos de talha de elevada complexidade técnica. Do mesmo modo, os puxadores e respetivos espelhos revelam grande apuro, sendo realizados em bronze dourado, cinzelado e vazado.
As cómodas-papeleiras deste período apresentam, em regra, formas relativamente simples, de influência inglesa. Contudo, em Portugal, a frente assume frequentemente um ligeiro ondulado. Por vezes, também as ilhargas acompanham esse movimento. Acresce que os cantos das prumadas, elementos verticais estruturantes, surgem cortados. Sobre eles sobrepõem-se, com frequência, pilastras entalhadas. Neste exemplar, essas pilastras são rematadas por colunas tridimensionais. Estas formam enrolamentos vazados e motivos de folhagem. Assim, atingem uma dimensão e uma profundidade pouco comuns. De igual modo, é rara a sua presença no tardoz do móvel.
A fábrica organiza-se em seis nichos e quinze gavetas onduladas. Integra ainda um escaninho com porta e duas gavetas laterais entalhadas. Todo este conjunto oculta-se atrás de um batente decorado com talha baixa. Por fim, importa referir que, não raras vezes, se colocavam alçados sobre as cómodas-papeleiras. Tudo indica que também aqui tenha sido esse o caso, como sugere a régua que contorna a superfície do tampo. Dessa forma, o móvel adquiria funções adicionais, nomeadamente a de oratório.
Desconhecido
Portugal
3º quartel do séc. XVIII
Nogueira, bronze dourado
127 x 133 x 72 cm
Antiquália Lda., Lisboa, 1971
FMA 177