Biombo Coromandel

Biombo Coromandel

A coleção de arte chinesa do Museu inclui três biombos em laca chinesa em exposição e um em reserva, dois exemplares produzidos para o mercado de exportação, e dois biombos destinados ao mercado doméstico, um deles muito raro.

Trata-se de um biombo de seis folhas – originalmente seria composto por doze -, lacado com recurso à técnica kuan-cai (laca incisa), com pintura em policromia e dourada em ambas as faces, uma peça de grande qualidade, dedicado a um oficial chinês de apelido Zheng.

Os Biombos

Os biombos têm origem na China, de onde se difundiram para o restante Extremo Oriente e, a partir dos séculos XVI e sobretudo XVII, para a Europa. As primeiras referências literárias a este tipo de peça remontam à Dinastia Zhou do Leste (770–256 a.C.), quando seriam provavelmente compostos por um único painel fixo. Já durante a dinastia Han (206 a.C.–220 d.C.) encontram-se representações de biombos de várias folhas, como comprovam achados arqueológicos em diversos túmulos da época.

A função original dos biombos, refletida nos próprios caracteres do seu nome chinês (“tela” e “vento”), era a de resguardar os espaços das correntes de ar. Paralelamente, foram usados como divisórias em interiores, em cerimónias do chá, em rituais budistas e até em procissões.

Com o tempo, a tipologia diversificou-se em dimensão e função: desde imponentes biombos destinados a salões palacianos até delicados exemplares em miniatura que ornamentavam as mesas de letrados. Também os materiais variavam: além da laca, podiam ser de madeira, papel, jade ou marfim, e as cavilhas evoluíram de pano ou couro para metal.


A Laca de Coromandel

A laca é uma resina natural obtida da Rhus Vernicifera (ch’ishu, em chinês), usada desde a Pré-História no Extremo Oriente como revestimento protetor de madeira, cestaria e têxteis. Contudo, apenas a partir do século V a.C. sobreviveram exemplares que comprovam o seu uso.

Referida em textos desde o século VII a.C., não se conhece com precisão a sua descoberta. Fontes antigas atribuem os primeiros objetos lacados ao tempo do lendário imperador Shun, cerca de dois mil anos antes da nossa era. As imensas possibilidades decorativas da laca — pintura, escultura, gravação, incisão ou embutidos — cedo a transformaram num material de luxo, amplamente apreciado e colecionado.

A designação “lacas de Coromandel” ou “de Bantan” não corresponde ao local de produção, maioritariamente situado na província chinesa de Honan, mas sim aos portos de embarque por onde estas peças eram exportadas para a Europa, a partir do final do século XVI: a costa do Coromandel, no sudeste da Índia, e o porto de Bantan, na ilha de Java, utilizados pelas várias Companhias das Índias.

A primeira menção ao termo “biombo Coromandel” surge num catálogo de leilão em Paris, em 1782. Já a expressão “trabalho de Bantan” aparece em 1688 no tratado A Treatise of Japanning and Varnishing, de John Stalker e George Parker.

O processo consistia na aplicação de sucessivas camadas de gesso ou argila sobre madeira, até formar uma espessura entre 2 mm e 1 cm. Sobre esta base eram dispostas camadas de laca, deixadas secar entre cada aplicação. Os tons escuros resultavam da mistura da resina — originalmente transparente — com pigmentos: carbono ou óxido de ferro para o preto, cinábrio para o vermelho e combinações para os castanhos. Uma vez preparada a superfície, realizavam-se incisões de diferentes profundidades, preenchidas com pigmentos vivos (azul-turquesa, verde, amarelo, branco, beringela) ou com folha de ouro, no caso das peças mais sumptuosas. Em certos exemplares, a decoração era escavada em negativo, criando motivos em relevo — técnica visível no biombo em estudo, que combina ambos os processos.

Os Biombos Coromandel

É nos grandes biombos que o trabalho de Coromandel atinge maior esplendor. Normalmente constituídos por seis ou doze folhas — neste último caso, muitas vezes fabricados em pares —, também se conhecem exemplares de oito ou dez.

A técnica surgiu na China em meados do século XVII, no final da dinastia Ming (1368–1644), mas a maioria dos biombos que chegaram à Europa pertence à dinastia Qing (1644–1911), sobretudo aos reinados de Kangxi (1662–1722) e Qianlong (1736–1795).

Importa distinguir entre os biombos produzidos expressamente para exportação e aqueles destinados ao mercado interno que, posteriormente, acabaram também por chegar à Europa — como o exemplar aqui exposto. Muitos foram desmontados e vendidos como painéis autónomos ou reutilizados em mobiliário europeu, o que alterou irremediavelmente a sua leitura iconográfica, já que os artesãos europeus viam os motivos chineses apenas como elementos decorativos.

O tema clássico por excelência era a “cena de palácio” — como a célebre Manhã de Primavera no Palácio Han —, composta por dezenas de figuras em ambientes arquitetónicos e jardins palacianos. Variantes comuns incluíam cenas de caça, representações das doze paisagens mais célebres da China ou cenas taoístas do paraíso. Normalmente, a cena central era emoldurada por uma cercadura de maior ou menor complexidade.

No reverso, os biombos podiam exibir longas inscrições dedicatórias — sobretudo quando produzidos para homenagear individualidades — ou ainda cartelas com inscrições e motivos ornamentais.

O Biombo do Museu

O biombo atualmente conservado no Museu é composto por seis folhas, mas a sua configuração original seria de doze. Esta conclusão decorre da interrupção visível da cercadura num dos lados, da presença de orifícios para inserção de cavilhas nas juntas e, sobretudo, da inscrição principal, da qual se perdeu metade do texto. As folhas estão unidas por um sistema de pinos e duplas argolas metálicas. O paradeiro das restantes seis folhas é desconhecido, presumindo-se que se tenham perdido no mercado europeu de arte.

Este exemplar distingue-se da configuração clássica dos biombos Coromandel por apresentar duas faces distintas: uma comemorativa, preenchida por uma grande inscrição, e outra decorativa, composta por cartelas de diferentes formatos, distribuídas de forma irregular.


 

A Face Decorativa

A face decorativa contém vinte e seis cartelas — originalmente cerca do dobro —, de formatos variados (retangulares horizontais e verticais, circulares, ovais, em leque e formas orgânicas), distribuídas irregularmente e delimitadas por uma cercadura simples, interrompida nas extremidades.

Os temas representados incluem paisagens, cenas domésticas, composições de pássaros e flores, os Oito Imortais taoistas — lendárias figuras da mitologia chinesa — e reservas com inscrições poéticas, entre as quais o célebre Poema à Ninfa do Rio Luo, composto por Cao Zhi (192–232), do período dos Três Reinos.

Poema à Ninfa do Rio Luo

(inscrito na cartela horizontal dos painéis 4 e 5, da direita para a esquerda)

Pairando como um cisne assustado,

Flexível como um dragão errante,

Esplendorosa como um crisântemo de Outono.

Luxuriante como um pinheiro na Primavera.

Parece uma lua meia escondida por entre as nuvens.

Flutua qual brisa suave.

Contemplei-a ao longe,

Brilhante como um sol que se eleva por sobre a névoa;

Ao perto, é um belo lótus erguido de verdes ondas.

É pura e esguia. É perfeita.

Belos ombros, cintura de seda branca.

Pescoço esguio, rosto saliente.

Pele branca de neve a sobressair

Sem cosméticos ou outros pós.

Cabelos ao alto, crescendo para as nuvens.

Belas e curvas sobrancelhas,

Lábios rubros, muito vivos.

Donde espreitam alvos dentes,

Olhos sábios de brilho irradiante.

Maçãs do rosto rosadas e proeminentes.

Beleza misteriosa, distinta

Calma e despreocupada,

Suave e graciosa.

Discurso encantador.

Sobressai neste vasto mundo.

Uma pintura.

As vestes e os brincos que lhe adornam os ouvidos

São de jade esplendoroso.

Na cabeça, ganchos de ouro,

Traz o vestido coberto de pérolas.

Enverga sapatos errantes,

E a saia é seda de neblina.

Na parte inferior desta face, destacam-se grandes painéis retangulares com representações de bambu em fundo escavado, formando uma longa faixa horizontal. O bambu, designado na tradição como “o amigo da China”, possui forte carga simbólica: representa longevidade pela sua resistência, estabilidade pela sua adaptação ao frio e ao calor, benevolência pela sombra que oferece e lealdade pela renovação dos rebentos que sustentam o tronco principal. Além do simbolismo, era amplamente utilizado na China na alimentação, no fabrico de papel, leques, mobiliário e aplicações medicinais — atributos que reforçam a adequação do motivo a uma peça encomendada para um oficial de alto cargo militar.

A Face Comemorativa

A face comemorativa apresenta uma longa inscrição central, enquadrada por cercadura decorativa. Apesar de incompleta, o texto conservado indica que o biombo pertenceu a um oficial de apelido Zheng, e que celebra uma embaixada da província de Fujian enviada a Beijing, no 28.º ano do reinado do imperador Kangxi (correspondente ao ano de 1689). Os nomes dos oficiais surgem listados no texto.

A cercadura exterior exibe, na parte superior e lateral, composições de vasos com flores e frutos (penjing) e representações das chamadas “Cem Antiguidades Chinesas” — livros, bronzes arcaicos e objetos de escrita — símbolos da continuidade cultural num período conturbado de transição entre as dinastias Ming e Qing. Na parte inferior, cada folha apresenta composições florais alusivas a diferentes meses do ano: a ameixoeira (inverno), o narciso (longevidade e boa sorte para o novo ano), a peónia (primavera, riqueza e distinção) e o crisântemo (outubro). A ausência de seis folhas explica a falta da representação dos restantes meses.


Técnica e Coloração

A decoração do biombo recorre à técnica de kuan-cai (laca escavada), explorando dois processos distintos: motivos incisos e pintados, ou fundo escavado deixando os desenhos em relevo. Esta conjugação confere à peça uma qualidade próxima da pintura chinesa, acentuada pelos contrastes de positivo e negativo também presentes nas inscrições.

Embora parte da policromia se conserve, o aspeto atual reflete o desgaste do tempo e a ação da luz, altamente prejudicial às lacas.


  Proveniência

O biombo foi adquirido por Medeiros e Almeida em 24 de agosto de 1945, na firma londrina John Sparks Ltd., 128 Mount Street. Esta casa, juntamente com a Bluett’s Oriental Dealers, foi uma das mais respeitadas no comércio de arte chinesa em Londres. Fundada por John Sparks (1854–1914), capitão da marinha mercante com longa experiência no Extremo Oriente, foi posteriormente dirigida pelo seu filho, Peter Sparks (1896–1970), que expandiu a atividade.

Em 1926, a firma recebeu um alvará real concedido pela rainha consorte Mary (1867–1953), e abriu uma sucursal em Xangai, permitindo-lhe negociar diretamente na China. O colecionador Medeiros e Almeida manteve uma relação próxima com Peter Sparks, de quem se tornou amigo pessoal, enviando-lhe regularmente ameixas de Elvas no Natal.

 

 

Samantha Coleman-Aller

Casa-Museu Medeiros e Almeida

 

Nota: O Museu agradece de forma muito especial a generosa colaboração da Doutora Ana Cristina Alves (CCCM Centro Científico e Cultural de Macau),  na identificação, transliteração e tradução das inscrições do biombo (Out 2012).

 

 

O trabalho de investigação acerca das obras da coleção do Museu Medeiros e Almeida está em constante desenvolvimento. Caso tenha alguma informação adicional ou alguma questão, agradecemos que entre em contacto connosco através do endereço de e-mail: info@museumedeirosealmeida.pt

 

 

Bibliografia:
BEDFORD, J.; Chinese and Japanese Lacquer, London: Cassell, 1969

BEURDELEY, C.; Le Mobilier Chinois, Friboug: Office du Livre, 1979

CARVALHO, Pedro de Moura; O Mundo da Laca, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001

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GARNER, H.S.; Chinese Lacquer, London: Faber and Faber, 1979

LEE, Y. K.; Oriental Lacquer Art, New York: Weatherhill, 1972

VILAÇA, Teresa; Um Tesouro na Cidade, Lisboa: Fundação Medeiros e Almeida, 2006

WILLIAMS, C.A.S.; Chinese Symbolism and Art Motives, Vermont: Tuttle Publishing, 1974

Autor

Desconhecido

Data

26º ano do reinado Kangxi (1662-1722), 1689

Local

Província de Fujian (?) / Província de Honan (?), China

Materiais

Madeira, gesso, laca e metal

Dimensões

Alt. 296cm x Larg. 49,8cm (cada folha)

Category
Mobiliário Chinês