CONCERTO

CONCERTO

Ludovice Ensemble

Por ocasião da exposição temporária Personal and Precious. Canecas Chinesas da Coleção Sapientia.

O evento terá início na exposição temporária, com a introdução de Fernando Miguel Jalôto e solo de flauta por Joana Amorim, seguindo-se o concerto, na Sala do Lago.

CHINOISERIES, ou o Oriente imaginado

Obras de A. D. Philidor (c. 1652-1730), M. Marais (1656-1728), F. Couperin (1668-1733), J. Ph. Rameau (1683-1764), J. A. Hasse (1699-1783), D. Perez (1711-1778) e melodias tradicionais chinesas da recolha (Divertissements chinois, 1779) do Padre J. J. M. Amiot (1718-1793).

Domingo, 19 março às 17h
Museu Medeiros e Almeida
Entrada pela Rua Rosa Araújo, 41
Entrada livre (sem necessidade de inscrição)
Abertura de portas: 16h  /  Início: 17h  /  Duração total: 1h

 

INTÉRPRETES:

Ludovice Ensemble
Joana Amorim, Traverso
Sofia Diniz, Viola de Gamba
Fernando Miguel Jalôto, Cravo

 

PROGRAMA:

Jean-Joseph-Marie Amiot (1718-1793) – transcrição
Extratos de «Airs de Musique pour les voix et instruments au son aigu, qu’on peut jouer et chanter dix fois» 4’00” (Divertissements chinois I, 1779)

 

André Danican Philidor (c. 1652-1730)
Suite de La Masquerade du Roi de La Chine (1700) 8’00”

  • Marche du Roi de la Chine
  • Loure
  • Entrée de La Pagode
  • Chaconne
  • Passepied en trio

 

Marin Marais (1656-1728)
Extraits du 4ème Livre (1717) & 5ème Livre de Pièces de Viole (1725) 8’00”

  • Marche Tartare
  • La Tartarine et double
  • Gigue La Pagode

 

François Couperin (1668-1733)
Extraits de la Vingt-septième ordre – 4ème Livre de Pièces de Clavecin (1730) 07’00”

  • L’Exquise
  • Les Chinois

 

Jean-Joseph-Marie Amiot (1718-1793) – transcrição
Extratos de «À l’ombre des fleurs sous la lune silencieuse» 4’00”
(Divertissements chinois II, 1779)

 

Michel-Richard de Lalande (1657-1727)
Extraits de Mirtil et Mélicerte (1698/99) et Les Folies de Cardenio (1720) 10’00”

  • 1er et 2ème Air des Siamois
  • Air des Chinois
  • Menuet pour les mêmes
  • Air pour les Pagodes

 

Jean-Philippe Rameau (1683-1764)
Extraits de Les Paladins (1760) 8’00”

  • Air pour les Pagodes
  • Entrée de Chinois

 

Davide Perez (1711-1778)
Aria de Leango de L’Eroe Cinese (Lisboa, 1753) 3’00”

  • «Ah sia de’giorni miei si questo l’estremo di»

 

Johann Adolf Hasse (1699-1783)
Sinfonia de L’Eroe Cinese (Hubertusburg, 1753) 7’00”

  • Allegro
  • Adagio
  • Allegretto
  • Allegro assai

 

 

BIOGRAFIA:

O Ludovice Ensemble é um grupo especializado na interpretação de Música Antiga, sediado em Lisboa, e criado em 2004 por Fernando Miguel Jalôto e Joana Amorim, com o objectivo de divulgar o repertório de câmara vocal e instrumental dos séculos XVII e XVIII através de interpretações historicamente informadas e usando instrumentos antigos. O nome do grupo homenageia o arquitecto e ourives alemão Johann Friedrich Ludwig (1673-1752) conhecido em Portugal como Ludovice. O grupo trabalha regularmente com os melhores intérpretes portugueses especializados, e também como prestigiados artistas estrangeiros. O Ludovice Ensemble apresentou-se em Portugal nos principais festivais nacionais e é uma presença regular nas duas principais salas de Lisboa: o CCB e a Fundação Calouste Gulbenkian. Apresentou-se no estrangeiro nos mais prestigiantes festivais de música antiga, na Bélgica (Bruges, Antuérpia); Países Baixos (Utrecht); França (La Chaise-Dieu, Bordéus); República Checa (Praga); Israel (Telavive, Jerusalém); Irlanda (Dublin); Estónia (Tallinn); e Espanha (Aranjuez, El Escorial, Vitoria-Gasteiz, Lugo, Badajoz, Jaca, Daroca, Peñíscola, e Pirenéus catalães). Gravou ao vivo para a RDP-Antena 2, a Rádio Nacional Checa (ČRo) e a Rádio Nacional da Estónia, bem como para o canal de televisão francês MEZZO. O seu primeiro CD, para a editora Franco-Belga Ramée/Outhere foi nomeado em 2013 para os prestigiados prémios ICMA na categoria de Barroco Vocal. Em 2020 lançou um álbum duplo com 6 sonatas inéditas de C. H. Graun para flauta e cravo obrigado, pela editora inglesa Veterum Musica. Do seu trabalho destacam-se: Vésperas de Nossa Senhora de 1610 de Monteverdi; Idylle sur la paix de Racine/Lully; Le Bourgeois Gentilhomme de Moliére/Lully; Les Arts Florissants de Charpentier; Cain ovvero il primo omicidio de Scarlatti; Timão de Atenas de Shakespeare/Purcell, em colaboração com o Teatro Praga. Espectáculos recentes incluem:  uma antologia de música portuguesa desde as Cantigas de Amigo até Lopes-Graça no festival Felicja Blumenthal em Telavive (Israel); a integral da Oferenda Musical de Bach no Festival de Marvão; as Leçons de Ténèbres de De Lalande no Festival Arte Sacro de Bilbau; e uma tournée de cinco concertos em Espanha com música francesa de influência espanhola (Lully, Charpentier, Couperin, e Campra) incluindo a Quincena Musical de San Sebastián e o Festival de Santander. Desde 2021 realiza-se em Aveiro a Academia Ludovice, um inovador festival e curso de Verão dedicado às práticas históricas interpretativas da música, dança e teatro barrocos.

 

Notas ao Programa:

“O enorme fascínio que a China e a sua milenar civilização exerce ainda hoje sobre os Europeus iniciou-se com os relatos fantasiosos de Marco Polo, e foram sendo alimentados por fugazes e incertos testemunhos que chegavam ao Ocidente já coados pelos árabes que com eles contactavam esporadicamente ao longo da mítica «Rota da Seda». Os primeiros contactos entre a China e a Europa Moderna foram mediados pelos portugueses que alcançaram aquele vasto império em 1513, datando de 1517 a primeira armada oficial. As relações nunca foram fáceis nem pacíficas, e os chineses frequentemente perseguiram os portugueses e outros ocidentais. Apesar da política oficial pouco amistosa, os imperadores chineses alimentavam por sua vez grande curiosidade pelo Ocidente, e foram gradualmente permitindo a entrada no país de missionários cristãos, sobretudo os Jesuítas que, dotados de uma vastíssima cultura, fizeram assim a ponte entre as duas civilizações. Estabelecida a célebre Missão Jesuíta na China em 1582, dissolvida em 1773, com a violenta extinção da ordem, a Europa passou a receber com regularidade informações e descrições mais fidedignas do «Império do Meio».

O século XVII assistiu a uma crescente curiosidade, e que eclodiu no século XVIII numa verdadeira obsessão pela China. Esta «mania» forma uma das principais orientações estéticas do período, e a «chinoiserie» influenciará de forma decisiva o novo estilo Rococó. A obsessão pelas cerâmicas chinesas — a famosa e inimitável porcelana — partiu inicialmente de Portugal, onde também os têxteis e o mobiliário foram sempre muito apreciados, e estendeu-se gradualmente a toda a Europa. Um maior conhecimento dos hábitos e tradições orientais — ainda que sempre «temperados» com muita fantasia ­— fizeram com que tudo o que fosse «à la mode de la Chine» se tornasse moda: cerâmicas sobretudo, mas também tecidos, mobiliário, jóias, roupas, artigos ornamentais… A imitação dos padrões orientais e a tentativa de recriar técnicas desconhecidas, como a já mencionada porcelana, mas também as lacas — aplicadas ao mobiliário — e a produção de seda contribuíram inclusivamente para a Revolução Industrial, com a fundação de inúmeras manufacturas de patrocínio régio, destinadas exclusivamente à «competição» com os produtos chineses.

As «Chinoiseries» ultrapassaram gradualmente o limite das Artes Decorativas: na França no tempo da Regência e durante o reinado de Luís XV vários pintores — como François Boucher (1703-1770) — executaram vários «caprichos» e «fantasias» orientais, e a existência de uma «sala chinesa» ou um «pavilhão chinês» tornou-se indispensável em todos os principais palácios europeus, enquanto os jardineiros ingleses lançavam a moda das «follies» (pequenas arquitecturas decorativo-paisagísticas) com a forma de pagodes.

No mundo do espectáculo dramaturgos e compositores não ficaram indiferentes a esta obsessão pela China, mas o desconhecimento absoluto da música chinesa faz com que que seja impossível detectar qualquer sugestão orientalizante, mesmo que muito vaga. A primeira descrição científica da música chinesa, da autoria do célebre missionário francês Jean-Joseph-Marie Amiot (1718-1793), data de 1754 – «De la Musique moderne des Chinois». Devem-se ao mesmo Padre Amiot as primeiras melodias chinesas em notação ocidental, os «Divertissements chinois», de 1779 — e das quais interpretaremos hoje alguns extractos. No entanto, só cerca de cem anos mais tarde é que os compositores ocidentais irão revelar um verdadeiro interesse pelas sonoridades do Extremo-Oriente. A associação entre China e música era no entanto muito forte já no século XVIII, não sendo por acaso que a célebre «Casa Chinesa» erguida sobre o canal nos jardins do Palácio de Queluz fosse usada como «coreto» musical. É também frequente nas Chinoiseries decorativas a representação — em pintura ou estatuetas cerâmicas — de músicos orientais.

O programa especificamente recolhido para este concerto pelo Ludovice Ensemble é composto por obras instrumentais francesas e italianas influenciadas por esse mundo maravilhoso e desconhecido. Os compositores, sem pretenderem representar qualquer realidade geográfica, cultural ou sonora, procuravam no entanto evocar um ambiente de fantasia, de luxo, e de requinte. Os temas orientais de bailados e óperas nada mais eram que uma oportunidade para a Europa embarcar numa «rêverie» galante, uma viajem imaginária e sentimental, à descoberta não do Outro mas sim de uma visão em espelho de si própria. Nas obras francesas a China é sobretudo imaginada como uma civilização refinada e amável, onde os sofisticados cortesãos se deleitam em jogos amorosos — o tema da «Mascarade du Roi de la Chine», de Philidor. A temática das máscaras, disfarces e ilusões passageiras serve também de mote à cena chinesa de «Les Paladins» de Rameau.

As danças chinesas e tailandesas («siamesas») de De Lalande têm provavelmente a referência mais concreta da embaixada enviada pelo Rei de Sião (Tailândia) a Luís XIV, que ocorreu em 1686 e foi presenciada pelo compositor.  Já em Couperin e em Marais a temática oriental é usada em «peças de carácter» para justificar a sua índole caprichosa, por vezes arrebatada, outras vezes lírica e sonhadora. As duas obras italianas foram curiosamente estreadas no mesmo ano, e sobre o mesmo libreto de Pietro Metastásio. A sinfonia de Hasse, famoso compositor alemão com formação napolitana, activo em toda a Europa, mas sobretudo associado à corte de Dresden, não parece muito anunciar a tragédia amorosa que é suposto introduzir; antes nos parece ligeira, cómica, quase frívola — um outro carácter na época ocasionalmente associado à China e aos seus habitantes. Já a ária de David Perez — compositor napolitano ao serviço da corte portuguesa — é de um grande lirismo sentimental, e adequa-se perfeitamente à seriedade do tema.

O Ludovice Ensemble propõe assim com este programa não uma viagem à China, enquanto realidade geográfica e histórica, mas antes uma jornada a uma terra de devaneio e de sonho, em que a elegância e o refinamento da música barroca se prestam à construção de um idílio sonoro, uma paisagem ideal que corresponde às maravilhas recriadas e encenadas num infindável número de «Chinoiseries» que recamavam os palácios europeus setecentistas, e que hoje ainda nos deliciam pela sua surpreendente mistura caprichosa de exotismo e fantasia.”

 

Fernando Miguel Jalôto, Junho de 2016/2023

Cartaz Ludovice Ensemble - Chinoiseries