Destaque Fevereiro 2017
“Natureza morta” (2) atribuídas a Anna Ruysch
O Museu expõe na sala de jantar duas naturezas mortas com flores, provavelmente um par, que estando anteriormente atribuídas a Jan van Huysum (1682-1749), foram reatribuídas à pintora de flores holandesa, Anna Ruysch (1685-1754).

Natureza morta com flores – FMA 465
Natureza morta – stilleven (palavra holandesa da qual deriva a palavra inglesa “still life”) – de fundo escuro, representando uma jarra com flores assente sobre uma placa de mármore. O arranjo é composto por sete variedade de flores (cravo, bola de neve – viburnum opulus roseum -, rosa Centifólia e rosa Damascena Alba, corriola – convolvulus spp –, tulipa “Semper Augustus” e papoila “Dutch Flag”), botões e folhagem. A ladear a jarra de cristal, bojuda e de pé alto, com perlado na base, surgem duas peças de fruta (pêssegos ?) à esquerda e um cacho de uvas brancas à direita, bem como um pano de veludo com franjas, assente sobre o mármore. Sobre a tulipa e a bola de neve estão pousadas duas borboletas da mesma espécie conhecida como “bela-dama” ou “vanessa dos cardos” – vanessa cardui.

Natureza morta com flores – FMA 466
Natureza morta representando uma jarra com flores sobressaindo de fundo escuro, assente sobre um suporte de mármore. A jarra de vidro (cristal) transparente, bojuda, com perlado na base e pé alto, reflete a janela do estúdio da artista, ao lado direito, sobre o mármore, pousam-se duas peças de fruta (romãs?) e um cacho de uvas. Flores de seis espécies diferentes (cravos brancos – dianthus caryophyllus –, “cravo-de-defunto” laranja – Tagete patula -, rosas Centifolia ou “rosa de Maio”, tulipas “Semper Augustus”) compõem o arranjo bem como folhagem, botões, cardos e três borboletas de espécies diferentes: borboleta “pavão – Inachis io -, borboleta “pequena-da-couve” – Pieris rapae – e borboleta “vanessa dos cardos”.
A natureza morta
A natureza morta é um género de pintura surgido no início do século XVII que representa com rigor e realismo, objetos inanimados, maioritariamente do mundo natural como flores, plantas, animais mortos, insetos e conchas, objetos utilitários como pratos, travessas, talheres, copos e jarras, ou ainda joias, livros, moedas e comida. Este tipo de pintura pormenorizada desenvolveu-se na senda da introdução da pintura a óleo no norte da Europa no século XV, o que permitiu uma versatilidade aos artistas, como uma técnica mais lenta (os óleos secam mais lentamente), potenciando maior atenção ao detalhe.
Este género encerra em si duas vertentes simbólicas; de um lado um grande simbolismo de pendor religioso patente na evocação da perecibilidade dos elementos representados que, por sua vez, alude à inevitabilidade da morte, lembrando a pequenez do Homem versus a grandeza de Deus. Este tipo de pintura funcionava, portanto como um “memento mori” (do latim: lembre-se da morte), na tradição da pintura conhecida como Vanitas (do latim: vaidade) na qual se representavam caveiras e objetos do quotidiano evocando o inevitável ciclo da vida, a futilidade das coisas terrenas e a necessidade de estar moralmente preparado para o encontro com Cristo.
Por outro lado, a introdução da observação do real, do olhar atento sobre as coisas do quotidiano, ou seja, da vida como temática na pintura, simboliza uma nova mentalidade formada nesta jovem nação Holandesa, que se iria tornar uma potência naval e económica, feita pelas mãos de uma classe de comerciantes que se tornaria numa abastada burguesia, que se enche de orgulho de si e do seu país, libertado do invasor, governado pelo povo e conquistado ao mar. As artes plásticas refletiram essa evolução com a introdução da pintura de paisagem (campo, praia, dunas, cenas de aldeia), natureza morta e de género numa tradução do seu mundo; foi a chamada “época de ouro da pintura holandesa”. De notar que tanto na Flandres católica como no sul da Europa, este género era considerado como de segunda categoria em relação à pintura de história ou religiosa.
À falta de encomendantes como a nobreza e a Igreja, todo o sistema de produção artística também mudou; os artistas serviam agora a burguesia endinheirada que decorava as suas casas com este tipo de obras, de uma escala caseira, vendidas na rua e em lojas em grandes quantidades e a preços relativamente altos (a pintura de paisagem valia entre 500 e 1500 Florins, por comparação, Rembrandt vendia os seus quadros por não mais de 500 Florins).
A pintura de flores
Um dos subgéneros da natureza morta é a pintura de flores. Nesta classe, em que se representam maioritariamente arranjos de flores em jarra com pouco mais referências para além de frutos e insetos, permite ao artista uma grande liberdade compositiva. Tal como as outras naturezas mortas, a pintura de flores também aliava à simples fruição estética e imortalização da beleza, todo um elaborado código simbólico que evocava a transitoriedade da vida traduzida na representação de flores, ora pujantes de vida e beleza ora a murchar, na perecibilidade dos frutos e no ciclo de vida dos insetos. Estas evocações cruzam-se com o simbolismo do sagrado ao cantar as belezas da Criação, ao aludir à Ressurreição de Cristo e à Salvação do Homem mas também com o terreno, na tradução do orgulho da pátria Holandesa, de um país e uma sociedade prósperos; a Holanda era livre, o povo amava a sua terra profundamente vendo no registo que a pintura de cavalete proporcionava a tradução da sua realidade, de um sentimento agradável: era o triunfo da pintura de flores, de paisagem e de género.
Provenientes da dinâmica política comercial holandesa, quase duzentas espécies de flores de diferentes países foram introduzidas na Holanda ao longo do século XVII, despoletando o interesse geral. As flores eram apreciadas pelo seu exotismo, beleza, cores, variedades e cheiro, para além do interesse científico que despertaram em áreas como a botânica, a medicina ou a jardinagem que conheceu grande desenvolvimento nesta época enquanto uma arte; para além dos primeiros tratados de jardinagem, surge a palavra holandesa landschap que deu origem ao termo inglês landscape. Tanto as flores como a pintura de flores que imortaliza estes tesouros, tornaram-se uma verdadeira paixão na Holanda do século XVII.
Entre as flores chegadas de longe, destaca-se a tulipa, proveniente do Império Otomano, que chega à Europa, logo desde 1570. O interesse nesta flor proveniente das montanhas que se deu muito bem com as difíceis condições climatéricas e os campos baixos holandeses, atravessou a ciência e a arte bem como o comércio, dando origem a um período que ficou conhecido como “tulipomania”. Nesta época (1630-1637), a transação de tulipas e dos seus bolbos, vistos enquanto elementos de luxo e de status, atingiu valores exorbitantes, provocando, o que se considera ser a primeira bolha especulativa da história.










