O Contador de dois corpos em sândalo, ébano e marfim, produzido no século XVII, apresenta uma organização estrutural clara. Divide-se em dois corpos distintos. Por um lado, integra uma caixa com nove gavetas. Por outro, inclui um corpo inferior com duas gavetas e duas portas. A peça assenta sobre pernas decoradas por nagine, figuras da mitologia hindu, metade mulher e metade peixe. Neste caso, estas figuras remetem para a influência europeia das sereias e não para o modelo hindu original, de corpo serpentino.
Quanto à decoração, os mestres artesãos executaram embutidos que revelam o cruzamento de gostos característico da arte mogol. Desta forma, a obra assume-se como uma peça híbrida, com tendências europeias, hindus, persas e chinesas. Além disso, os artífices utilizaram marfim natural e marfim tingido de verde, combinados com madeira clara. Assim, estes materiais criam contraste com o fundo escuro do ébano.
Posteriormente, no século XIX, removeram o topo original e substituíram-no por madeira lisa ebanizada. Nesse momento, introduziram também uma balaustrada e uma arcaria de gosto “gótico” na base do corpo inferior. Além disso, trocaram as fechaduras e os espelhos das gavetas por pequenos puxadores de marfim. Por fim, é possível reconstituir o aspeto original do exemplar através da observação do par, igualmente modificado, hoje conservado no Museu Municipal de Angra do Heroísmo.
Desconhecido
India
séc. XVII
Ébano, sândalo, marfim
136 x 45 x 82 cm
Mallet & Son Antiques Ltd., Londres, 1972
FMA 1357