Os Oito Cavalos do Imperador Wang – Um conto em porcelana

Objeto: Terrina oitavada com travessa correspondente
Período: Dinastia Qing, reinado de Qianlong, c. 1740
Material: Porcelana, esmaltes
Dimensões: Alt. 19,5 × Larg. 29 cm
N.º de inventário: FMA 4205 – FMA 5463
Proveniência: Conjunto adquirido ao antiquário Henrique Soares Antiguidades, Rua do Alecrim, 64–68, Lisboa, a 12 de dezembro de 1955, por 35.000$00
Coleção: Museu Medeiros e Almeida, Lisboa

A terrina oitavada com a respetiva travessa foi produzida nos fornos de Jingdezhen durante o reinado do imperador Qianlong (1736–1795), período marcado por elevados padrões técnicos, refinamento estético e de grande abertura à experimentação formal. A forma oitavada, pouco comum na porcelana chinesa do século XVIII, revela um gosto sofisticado e evidencia o diálogo com modelos europeus, frequentemente adotados na produção de peças de prestígio desta época.
A decoração, executada em esmaltes da família rosa, apresenta o tema conhecido como os Oito Cavalos do Imperador Mu (Mu Wang). Este tema iconográfico, designado Bā Jùn Tú (八骏图), tem origem no romance histórico Mu Tianzi Zhuan (Relato do Imperador Mu), que descreve as viagens lendárias do quinto imperador da dinastia Zhou (1023–983 a.C.) em busca da imortalidade. Segundo a narrativa, Mu Wang percorreu vastas regiões numa carruagem conduzida pelo cocheiro Zaofu e puxada por oito cavalos prodigiosos, até alcançar o mítico Monte Kunlun, morada dos imortais taoistas e da deusa Xi Wangmu, a Rainha-Mãe do Ocidente.
Dotados de capacidades sobrenaturais — como correr mais rápido do que as aves, mover-se sem tocar no solo ou cavalgar sobre nuvens —, os oito cavalos tornaram-se símbolos de poder imperial, virtude moral e legitimidade cósmica. A sua história foi retomada e desenvolvida em textos posteriores, como o Shiyiji (Pesquisas sobre Registos Perdidos), do século IV, contribuindo para a ampla difusão do tema nas artes visuais. A partir do final da dinastia Ming, os Oito Cavalos do Imperador Mu constituíram um motivo recorrente na decoração de porcelana, particularmente durante o período de Transição e até ao reinado de Yongzheng (1723–1735) já na dinastia Qing, mantendo uma presença mais seletiva sob o reinado do imperador Qianlong (1736-1795).
Na decoração deste conjunto, executada em esmaltes da família rosa, os cavalos, com as suas colorações características, surgem representados em repouso no chamado paraíso dos cavalos, após o cumprimento do dever imperial, integrados numa paisagem idealizada composta por salgueiros, ramos floridos e rochedos arborescentes. A paleta cromática rica e delicada, aliada à precisão do desenho e à fluidez do movimento dos animais, demonstra a elevada mestria dos pintores de Jingdezhen. A cena transmite valores auspiciosos como sucesso, longevidade, virtude e harmonia, conceitos centrais da ideologia imperial chinesa e particularmente adequados a objetos associados ao cerimonial.
Os elementos escultóricos reforçam o significado simbólico da peça: as pegas da terrina, modeladas em forma de cabeça de coelho, e o pomo da tampa, em forma de romã com ramagem, ambos executados em esmalte rouge de fer, remetem para ideias de fertilidade, abundância e renovação. Estes pormenores, aliados à forma oitavada, sublinham o carácter híbrido do conjunto, resultante da conjugação entre formas de inspiração europeia e um programa decorativo profundamente enraizado na tradição chinesa.
Este conjunto constitui um exemplo notável da porcelana Qing do período Qianlong, ilustrando a persistência de temas narrativos clássicos reinterpretados à luz de um gosto cosmopolita e de um excecional virtuosismo técnico, num objeto simultaneamente utilitário e simbólico.